sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Tiago

A noite estala os dedos nas gotas de chuva que frita nas minhas janelas. Estala-os mais do que quem marca o compasso, estala os dedos como quem marca o tempo, como quem se fantasia de ampulheta. A ampulheta cortada a metade é um copo. É um copo a encher gota a gota, estalo a estalo, como uma mão que sobe fria entre as minhas saias palmo a palmo. A noite lambe os beiços, olhos hipnotizados como um pedófilo esfregaria as mãos se fosse uma formiga. Languidamente. Intensamente passa as mãos por entre as minhas cuecas brancas para sentir meus lábios, secos, rijos. Olho-a com o terror com que uma criança olha um pedófilo. Ela pega-me na mão e pousa-se sobre a sua barriga, sorri maternalmente ao ver me sentir o murro-grito do embrião. A besta. O anjo negro.
Encosto a minha cabeça no muro das lamentações, encosto-me as suas pedras, roço a minha cabeça nelas, beijo-as apaixonadamente, procuro inteirar-me delas quando levanto os olhos e vejo que estivera-me deliciando sobre o abdómen esculpido da besta. Acordo desse semi-sonho, dessa matrioska. Estou de frente para a noite que ainda me fita estudiosamente.

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