quinta-feira, 6 de novembro de 2014

XVII

O vómito é apenas uma forma de procurar as moedas nos bolsos
As unhas com sangue morto esgravatando o escuro dum vazio
Não importava para o repúdio dos portadores de moleskines
Se era alheio ou próprio

O esófago inflamado também
Pela pornografia gratuita das histórias dos nautas
Nós que estávamos amarrados a um nojo pelos tomates
Reincidentes confessando a crianças o nosso crime
Obrigados a participar numa política pública de saúde
Onde não era absolutamente claro se a psicologia inversa
Não é a responsável pelo pecado.

Olhávamos sôfregos para as mentes brilhantes
Esperando acordar de manhã com uma salvação na caixa do correio
Nem que fosse paga a suaves prestações por uma subserviência consentida

Mas havias nos seus olhos uma assustadora cor dourada
Estranha à prosódia do respirar das árvores
E restava-nos a conversa com os ratos mortos no chão
Que nos confessavam não terem há várias décadas
Algum fruto podre na terra

Estávamos famintos
Julgámos que havia paternalismo no terem criado contentores sanitários
Por isso alimentamo-nos das estantes e do todo o lixo que lá encontrámos

As nossas mães choram a ver os nossos antigos retratos


Mas não foi só isto que nos levou à bulimia 

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